Estudante denuncia que pessoas que não se enquadram no critério de seleção entraram em medicina na através das cotas Ufba

 Estudante denuncia que pessoas que não se enquadram no critério de seleção entraram em medicina na através das cotas Ufba

Um estudante do bacharelado interdisciplinar (BI) em Saúde da Universidade Federal da Bahia (Ufba) denunciou que candidatos a vagas de medicina, e que não se enquadram no critério de seleção, foram beneficiados pelo sistema de cotas para negros. A Defensoria Pública da União apura o caso.

O estudante e professor de física Lourival Ferreira, de 44 anos , que fez a denúncia, conta que tem o sonho de ser médico. Para trocar de carreira, cursou bacharelado interdisciplinar na Ufba, já de olho na seleção para medicina.

“Se você olhar o meu histórico, eu tenho mais de vinte [notas] 10 no meu histórico. No meu caso, ainda tive que prolongar, de forma estratégica, para fazer uma pontuação ainda maior e migrar para o curso de medicina”, explica.

Em 2018, Lourival participou do processo seletivo através do sistema de cotas para negros, pardos e indígenas. Entretanto, ao invés da esperada vaga para medicina, foi surpreendido com a aprovação de candidatos que, segundo ele, fogem às regras das cotas.

“Muitos viram inclusive os perfis das pessoas que passavam, e a gente percebeu que não tinham o perfil específico. Para medicina, três não tinham esse perfil. Depois de toda a investigação, saiu o relatório conclusivo da UFBA. A revolta foi tanta, que várias pessoas denunciaram”, conta o estudante.

Em nota, a Ufba informou que o processo está em andamento. O resultado foi concluído e remetido ao setor de correção, para que sejam tomadas medidas cabíveis. Porém, ainda sem data prevista, por causa da suspensão das atividades presenciais na universidade devido à pandemia da Covid-19.

O defensor da união, André Porciúncula, falou sobre o caso de Lourival e contou que DPU já tinha ajuizado, este ano, ação pública e também apuração de denúncias de fraudes nas cotas da Ufba.

“Uma candidata que ficou em uma posição anterior a ele foi selecionada para esse curso, porém ela não preenche os pré-requisitos fenotípicos de candidatos pretos, pardos e indígenas. Como a Ufba não adotava uma comissão de identificação para analisar se essas pessoas tinham características que preencher seu edital, a candidata acabou ingressando no curso”, explicou o defensor.

Lourival ainda espera, sem previsão, que a lei de cotas seja cumprida. “Tem que dar a vaga para quem tem direito à vaga, e ela [Ufba] se resolver com quem fraudou”, enfatizou o professor

O defensor da união explica que a Ufba deixou transcorrer, sem manifestação, o prazo para defesa. Então, nesse momento, ele aguarda a decisão judicial sobre o pedido.

Outros casos

A estudante Daiane Pinto fez mesmo caminho de Lourival e está indo para o 5º semestre de medicina. A estudante faz parte do Coletivo Negrex que tem denunciado à ouvidoria da universidade outros casos.

“Tem muitos estudantes com o tom de pele muito mais claro do que aqueles considerados retintos, ou a cor dos olhos. A gente tem casos, assim, de estudantes que fizeram procedimentos estéticos para escurecer a pele, bem como usaram de estratégias para cachear o cabelo e, no momento da aferição, essas pessoas burlaram dessa maneira e foram aprovadas”, conta Daiane.

Em 2019, a Ufba abriu sindicância para apurar possíveis irregularidades. A estudante Lindinês lutou um ano na Justiça para provar fraude no sistema de cotas.

Ela recorreu à Defensoria Pública da União que recomendou à universidade adotar uma banca de verificação, o que foi feito. Só então a fraude foi reconhecida pela Ufba e Lindinês teve acesso a vaga do curso de medicina garantida por lei.