Para quem acusa os adversários de “lacrar” em um tom extremamente crítico, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) tem caprichado. A última pérola dele foi a sugestão de que, caso a esquerda “radicalize”, não estaria descartado “um novo AI-5”. Até para os arroubos retóricos típicos da família, o ex-quase-embaixador ultrapassou qualquer limite aceitável. E, por mais que imaginemos que tudo não passa de mais um delírio dele, é impressionante acreditar que existam pessoas que pensem que baixar um Ato Institucional que limitou direitos é algo que pode voltar a acontecer sem muita cerimônia.

O 03 não falou isso sozinho. Concordemos ou não, ele foi eleito com alguns milhares de votos, o que significa que mais gente coaduna com posturas assim. Lembremo-nos que veio dele a afirmação de que, para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF), seria necessário apenas um cabo e um soldado. Essa declaração veio a público antes da eleição, então autoritarismo não é algo novo no repertório do filho caçula do presidente da República. Ainda assim, ele garantiu uma vaga na Câmara dos Deputados, mesma vaga pela qual ele quase abriu mão de quase dois milhões de votos para uma aventura em Washington (DC).

A reação contra a nefasta fala veio numa velocidade impressionante. Não apenas os adversários criticaram duramente a ideia abjeta de ruptura institucional, mas até aliados se mostraram contrariados com a declaração. Mesmo o pai, o presidente Jair Bolsonaro, que habitualmente tem “passado a mão na cabeça” dos rebentos, lamentou a referência ao desastre histórico que o marmanjo de 35 anos tratou com tanta casualidade. E olha que o bolsonarismo em geral flerta com muita facilidade com ditaduras.

O revisionismo histórico e os constantes ataques à democracia explicam, em parte, o comportamento de Eduardo. Mas também há um quê de frustração na declaração sobre o AI-5. O herdeiro presidencial viu ruir a tentativa de chegar à embaixada brasileira nos EUA e precisou da intervenção do pai para conquistar a liderança do PSL na Câmara dos Deputados. O que deveria ser uma saída honrosa para a fragorosa tentativa de morar no estrangeiro com tudo pago pelos cofres públicos acabou se tornando um embate sanguinolento no seio dos apoiadores do governo no Congresso Nacional. Respeitemos, então, a birra do “garoto”.

Ainda assim, devemos nos manter ainda mais alertas para que desvarios como esse apresentado pelo deputado federal não ganhem repercussão para além do repúdio. Não deixemos que alguém, quem quer que seja, acredite que o Brasil precisa pôr fim a estruturas democráticas para implantar uma ideologia carregada de preconceitos. Rechaçar é o mínimo a ser feito. Mesmo que para isso defenestremos um dos príncipes desse novo reinado implantado no país. E olha que não faltam elementos para criticar também os consanguíneos. Esses, pelo menos, foram ligeiramente menos explícitos do que o 03 de Bolsonaro.

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